Ser Mulher nas áreas das Ciências e Tecnologias e em cargos de decisão

No dia 17 de fevereiro celebrou-se o Dia Internacional das Mulheres na Ciência e no dia 8 de março o Dia Internacional da Mulher. Sendo uma mulher a dirigir o INETE, uma escola tecnológica (onde 84% dos alunos são do género masculino) e integrando o Grupo ENSINUS, maioritariamente dirigido por Diretoras (certamente uma exceção), o tema constituiu uma escolha óbvia para a inauguração desta série de artigos.

Tendo como ponto de partida as palavras do Secretário Geral da Nações Unidas Eng. António Guterres, pois nunca é demais sublinhar e apelar ao fim dos estereótipos e das limitações e restrições enfrentadas pelo género feminino em pleno século XXI:

"On this International Day, I urge commitment to end bias, greater investments in science, technology, engineering and math education for all women and girls as well as opportunities for their careers and longer-term professional advancement so that all can benefit from their ground-breaking future contributions." 

Algumas pesquisas sobre o tema, remetem-nos para o facto de, apesar dos excelentes exemplos e das provas dadas, as mulheres continuarem a ser uma minoria na investigação científica e em cargos de topo nas direções e administrações das empresas. De acordo com o relatório da UNESCO temos feito bastantes progressos, mas mantém-se um problema de desequilíbrio de género, designado pelo Eurostat como ‘generation effect’. O documento aponta para alguns fatores, tais como o ambiente académico, a maternidade e a família, preconceitos e estereótipos, entre outros.

A grande questão que se coloca é se estamos ou não a diminuir essa distância. Pelo estudo Pisa 2015 sobre o tipo de carreiras esperadas pelos jovens de 15 anos, verificamos que mais do dobro dos rapazes espera trabalhar como cientista, engenheiro ou arquiteto, quando comparado com as expectativas das raparigas e que, na média dos países da OCDE, 4,8% dos rapazes contra apenas 0,4% das raparigas pretende trabalhar em profissões ligadas às tecnologias da informação.

Considero preocupante que as influências culturais condicionem tanto o modo como as raparigas pensam nas profissões ligadas à ciência e tecnologia. Consequentemente, como poderão a escola e a família ajudar e encorajar uma outra abordagem para uma visão mais inclusiva das ciências? A resposta passa certamente por uma melhor orientação vocacional, um contacto direto com essas profissões e com profissionais em funções percecionadas como ‘femininas’ ou ‘masculinas’, assim como ações de sensibilização/motivação para uma diversidade de temas relacionados com áreas de ciência e tecnologia.

O INETE, enquanto escola Associada da UNESCO, irá implementar um plano de ação, preparando iniciativas que promovam uma diferente perceção dessas profissões. Ter a perceção do estereótipo e/ou preconceito pode ser um primeiro passo para uma escolha da profissão baseada nos reais interesses e vocação dos nossos jovens.

Para terminar, fica um último desafio:  numa era tão fortemente condicionada pelo digital e pelas necessidades do mercado de trabalho em profissões ligadas às tecnologias, qual o papel da formação humanística, cultural, artística, literária, de cidadania integral? Certamente um tema para um próximo artigo.